Terceira Parada: Os cafés históricos – Barradas (Uruguai)

Saímos do Brasil colônia e seguimos nossa viagem em busca de mais histórias que nos contam sobre a conexão entre o café e a Arte. E vamos parar em terras Uruguaias, mais precisamente na Montevidéu de 1890, quando nasce o artista Rafael Pérez Giménez (1890 – 1929).

Filho de espanhóis, Rafael Barradas (nome que ele mesmo se deu utilizando o sobrenome materno de seu pai pintor, Antonio Pérez Barradas) não realizou nenhuma formação acadêmica em Artes. Frequentava, desde a adolescência, as tertulias, encontros de dramaturgos, poetas, pintores, músicos e intelectuais que aconteciam em cafés nas cidades de Montevidéu e Buenos Aires. Imagine, caro leitor, como eram esses cafés: locais com o público praticamente masculino, com uma efervescência cultural gigantesca, onde tinham lugar todo tipo de produção artística e política.

Fotografia do “Café Britânico” em Montevidéu.

Cultura e Café

O Café Británico, o Polo Bamba, em Montevidéu, e o Ateneo, em Buenos Aires, são alguns exemplos desses espaços democráticos privilegiados do século XIX que fizeram história nas capitais do Rio da Prata e propiciaram diversos intercâmbios de ideias, a criação de poesias e pinturas, peças de teatro e composição de música popular. Foi esta a época, por exemplo, dos jovens dramaturgos José Pedro Bellán e Ernesto Herrera (“Herrerita”).

Aquarela, de Alvaro Rose, do “Café Polo Bamba”, em Montevidéu.

É nas mesas desses cafés que Barradas realiza seus estudos de desenho e os aprimora a partir das cenas e das pessoas que observa. Por volta de 1910 fica conhecido na cena cultural de sua época, recebendo mais críticas que elogios pelas suas produções. Trabalha, principalmente, com caricaturas e desenhos em algumas revistas.  Em 1913, então com 23 anos, edita a publicação satírica “El Monigote”, na qual é o responsável também pelas ilustrações.

El Monigote

Vibracionismo

É neste mesmo ano que viaja para a Europa, a convite de seu amigo, o tenor Alfredo Médice, que compartilha com ele sua bolsa de estudos. Lá entra em contato com as primeiras vanguardas, o cubismo, o futurismo, circulando por Milão e Paris. Em 1917 cria o Vibracionismo, que tem como cerne a dinâmica, a multiplicidade, a vitalidade e o movimento das grandes cidades. Um exemplo de tela vibracionista é Atocha (1919):

Atocha 1919

Segue frequentando e se inspirando nos Cafés e é desta época sua tela Copo de café (1917):

Copo de café – 1917

E Dama no Café (1918):

Dama no café – 1918

Em 1919 decide se fixar em Madrid, trabalhando como ilustrador e cenógrafo teatral. É na capital espanhola que frequenta a Residência de Estudantes e fica amigo de Lorca, Dali e Buñuel. Volta a ter as tertúlias, como as do Café Pombo, como sua fonte de inspiração chegando a criar sua própria tertulia no famoso Café “Social” do Oriente.

Na foto abaixo, de 1923, aparece sentado à esquerda, abraçado por García Lorca, com Benjamín Jarnés, Humberto Pérez de la Ossa e Luis Buñuel atrás em pé.

1923 – Rafael Barradas sentado à esquerda, abraçado por García Lorca.

Quantas inúmeras produções culturais de diversas áreas das Artes foram criadas nesses cafés e em suas reuniões de artistas, provavelmente regadas a muito cafezinho! Quem não gostaria de estar degustando e participando deste momento histórico? Imagina?!

As telas, O Homem no Café (1923)

O Homem no Café – 1923

E o Homem no Café (1925)

Homem no Café – 1925

são exemplos de retratos que dão destaque a xícara com a nossa bebida predileta.

El Ateneíllo de Hospitalet

Barradas foi ilustrador de revistas, de contos infantis e livros para adultos. Desenhava histórias em quadrinhos e foi também cenógrafo e figurinista. Em 1926, já muito doente pela tuberculose, deixa Madrid para morar em Hospitalet, próximo de Barcelona. Ali, em sua própria casa, recebe artistas e intelectuais da época nas célebres tertúlias de “Ateneíllo”.Volta para Montedivéu em dezembro de 1928, onde falece dois meses depois.

Finalizamos esta parada de nossa viagem, com a pintura Cena de café (1913) que nos passa toda a atmosfera destes espaços em cujas paredes se desenvolveram movimentos culturais, correntes literárias, revoluções, manifestos e diversas tendências artísticas que fizeram história.

Cena de café – 1913

“O copo de café” e mais 502 obras de Barradas podem ser vistas no acervo online do Museu Nacional de Artes Visuais de Montevidéu.

Para conhecer mais sobre o artista, indicamos o vídeo Pintores Uruguaios – Rafael Barradas que mostra diversas telas do pintor durante oito minutos; também Qui era Rafael Barradas?, reportagem de cinco minutos da TV de l’Hospitalet; e Apuntes: Rafael Barradas da Televisão Nacional do Uruguai, um vídeo de um minuto sobre o artista.

Continuaremos nossa viagem descobrindo mais sobre a relação da Arte com o café. E você, leitor e cliente, conhece alguma obra que revele esta conexão? Comente!

Não deixe de ler:

Primeira parada com Cândido Portinari.

Segunda parada com Jean-Baptiste Debret

Até a próxima parada, em mais um Café com Arte!

Carol Lemos – jornalista, mudou-se de São Paulo para Alto Paraíso, onde encontra inspiração para escrever e cuidar dos pequenos Uirá Alecrim e Dhyan Eté. Carol escreve semanalmente para o blog do Grão Gourmet.

Equipe Grão Gourmet

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