Escolhemos o dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, para o primeiro post da nova série do blog “Inspirações Cafeinadas”, onde iremos contar uma história inspiradora ligada de alguma forma ao café. A primeira história foi escolhida a dedo para inspirar todas as mulheres que, como a Rosa e eu, lutam dia a dia em suas atividades por seus direitos legítimos. Uma ótima leitura a todos 😉

Renata – fundadora do Grão Gourmet

Das fazendas de café no interior paulista à líder comunitária e empreendedora social em Londres – conheça e se inspire com a história de vida de Rosa Gonçalves

Se você caminhar no bairro de Greenwish, em Londres, ao lado de Rosa Gonçalves, 59 anos, não vai parar de ouvir comprimentos das pessoas nas ruas. Muitos, dos aproximadamente 300 mil habitantes, conhecem ela ou já ouviram falar dela. Além dos comprimentos é comum, quase que diariamente, Rosa receber pedidos de apoio em relação a algum desafio que alguma pessoa ou família esteja passando: desde problemas com cartão no banco até vaga em escolas, Rosa vai lá junto tentar resolver. E não é que resolve?!

Rosa Gonçalves imagem 1
Palestrando em uma comunidade (arquivo pessoal)

Este talento ou, como ela mesma diz:

“algo que sempre existiu em mim mas não havia florescido”

Começou a germinar em setembro de 1990 quando a diretora da escola de sua primeira filha (hoje é mãe de três: Jessica Alexandra 30, Alishia Mariam, 22 e Alim Gabriel, 20. E mãe adotiva de mais três filhos: Sylvester, 31 – adotado quando tinha 12 anos, Elisabeth, 30 – adotada quando tinha oito anos, Rosemary, 25 – adotada quando tinha quatro anos e Catherine, 35 anos – que adotou ela como mãe. E cinco netos: Edna, Kelrine, Zamira, Denim e Romer) a convidou para fazer parte do Conselho de Educação da escola:

“fui voluntária por seis anos neste processo, que era o de representar as mães e pais no conselho, e ser o ponto de contato entre os professores e os pais, os apoiando neste diálogo”, conta.

Neste mesmo período, o conjunto habitacional no qual morava iria ser demolido pela prefeitura para que outro fosse construído em seu lugar.

Rosa, com as filhas
Rosa, com as filhas Jessica e Alishia (arquivo pessoal)

Liderança comunitária e moradia

Chegou pela primeira vez em uma reunião, após um convite, e, como de costume, falou bastante. As pessoas gostaram tanto que a convidaram para fazer parte da Associação de Moradores.

“Em um mês eu já era vice-presidente e fazia a interlocução com a prefeitura de Greenwich”, conta.

A prefeitura também gostou da forma como Rosa conversava e trazia o que os moradores precisavam. “A prefeitura tinha um sistema para a mudança dos inquilinos dos conjuntos habitacionais que era utilizado em caso de problemas comuns, como infiltrações, infestações etc, para os quais os inquilinos seriam re-instalados em propriedades adequadas, exatamente em tamanho ou melhor que as atuais. Naquele caso, nós queríamos ficar, eles queriam que nós saíssemos. A estratégia precisava ser diferente”, revela.

Rosa e a comunidade
Primeiro evento que organizou, em 2003, para a comunidade que foi demolida (arquivo pessoal)

Rosa, então, liderou uma série de propostas sistematizadas em estratégias para que a prefeitura considerasse a necessidade dos moradores. Foi uma revolução em termos estratégicos de moradia. “95% da nossa proposta foi aprovada”, conta. Entre as conquistas, estavam:

  • Uma porcentagem das novas propriedades que seriam construídas no bairro após a demolição tinham que ser casas sociais para famílias de baixa renda, com material e arquitetura de qualidade (48% foram destinadas para este fim);
  • Todos os moradores saíram com o direito de voltar para o bairro, se quisessem, quando as novas casas estivessem prontas;
  • Tinham duas semanas para mudar e, neste período, não precisavam pagar o aluguel das duas casas. Apenas de uma;
  • A prefeitura contratou duas companhias de mudança para fazer a mudança, sem custo para a população;
  • Tinham direito de escolher para onde queriam ir (quatro opções de bairros oferecidas pela prefeitura) e dizer das quatro opções: onde jamais iriam e onde iriam de preferência, a partir de uma pesquisa de todos os bairros de Greenwich;
  • Quando assinavam o contrato da casa nova, cada inquilino recebia um pacote de informação sobre a casa, registro de gás, luz e água e um vaucher para cada residência para ajudar na reforma da casa nova;
  • Receberam, também, um cheque de indenização.

O processo todo – o maior de toda a Europa, na época -, entre a decisão da prefeitura e a compreensão da mudança por todos os inquilinos, durou mais de dez anos e virou referência na Europa para este tipo de situação. Para Rosa, esse foi o treinamento de como ser uma liderança comunitária e representar as pessoas que precisam de ajuda, até hoje, em relação à prefeitura, às escolas, à polícia, à saúde, entre outros.

Rosa e o prefeito
Com um representante do prefeito (arquivo pessoal)

Perguntada sobre o que é ser uma líder comunitária, Rosa explica:

“Antes de liderar é representar a população. É fazer, doar, sem esperar de volta, sem brigar. O governo tem seus planos como líder, discutimos a melhor maneira de honrar o manifesto do governo e como representante passo ao povo a estratégia na sua própria língua”.

E, em relação ao maior aprendizado neste processo diz: “Aprender a escutar e a falar quando de fato for a minha hora. Ser eu mesma, ser a Rosa. Não fazer parte de um partido, porque isso vai me restringir. Não devo satisfação para ninguém, ajudo todo mundo, tenho respeito de todo mundo e me ajudo”.

A infância nas fazendas de café

Nascida na cidade de Vinhedo (SP), em 1957, Rosa passou a infância trabalhando nas plantações de café que, na época, estavam no auge na região. Aprendeu a fazer tudo que sua mãe fazia como bóia-fria nas lavouras: coar, fazer as mudas, as covas e plantar, fazer cercas, colher, inclusive fazer e tomar café.

“Eu cresci trabalhando com a minha mãe nas plantações de café. Eu ajudava a cuidar das crianças pequenas, enquanto ela colhia o café. Quando ela não podia ir trabalhar, era eu quem ia”, conta.

Rosa na infância
Rosa com quatro anos (Arquivo pessoal)

Infância dura e roubada num trabalho árduo até para adultos. Essa realidade era compartilhada (e ainda é) por muitas famílias e crianças nas fazendas de café do interior paulista.

Aos treze anos, foi morar ao redor da cidade de Amparo (SP) e por lá viveu por cerca de cinco anos trabalhando em diversas fazendas. Quando estava com 18 anos, trabalhando na Fazenda Jaburu, recebeu o “convite” de ir morar em Santos (SP) com a dona da fazenda: “Ela não perguntou se eu queria ir, ela disse que queria me levar para lá e minha mãe me convenceu a ir. Eu não queria ir”, revela. Na casa em Santos trabalhou como empregada doméstica:

“Foi muito duro, muito escravo, fui muito maltratada lá. Tinha apenas uma folga por semana, às vezes só uma tarde. Ela me falava que se fosse na época da escravidão eu viveria no tronco”, conta.

Nesta época Rosa já se interessava muito pelo inglês. “Eu não falava, mas eu entendia inglês. Era impressionante!”, conta. Nesta casa que trabalhava ouvia músicas em inglês e perguntava o que estavam falando. Foi quando a dona da casa disse “você nunca vai aprender inglês”. Rosa conta rindo, comemorando este ano, 39 anos que vive em Londres e que usa o inglês para trabalhar e ajudar outras pessoas.

A ida para Londres, conta ela, foi um presente de Deus: “Eu havia comentado com uma patroa, Dona Virginia Guerra, que gostaria de ter a oportunidade de me comunicar com ingleses para aprender inglês logo. Ela me perguntou se eu gostava tanto assim de inglês e eu respondi que amava o inglês! Então, ela disse que tinha amigos que trabalhavam na Marinha e que iam para Londres, caso alguma família estivesse indo e precisasse de empregada doméstica iria me indicar”, conta.

Meses se passaram e Rosa até já havia se esquecido desta conversa. Numa noite, em agosto de 1978, ela saiu para caminhar pela praia e pedir ajuda à Deus: “eu chorava pedindo que queria uma vida melhor e que sabia que tinha uma vida melhor para mim. O que eu não sabia era que Deus já havia me abençoado”, revela. Na manhã seguinte sua patroa, na época, bate em sua porta e diz que tem uma família no Rio de Janeiro esperando ela para leva-la a Londres. Em dois meses, ela chegou “saindo do avião o frio parecia que o céu tinha descido para a terra”, conta.

Rosa com 21 anos
Quando saiu do Brasil, com 21 anos (arquivo pessoal)

Os primeiros anos de vida em Londres não foram fáceis, trabalhou como empregada doméstica e também camareira: “Era muito, muito puxado mesmo”, conta.

A empresa social

“Não precisa ter patrão nem ser patrão dos outros. Vai ser patrão de si mesmo”,

com essas palavras Rosa começa a contar sobre a Kidbrooke Community Enterprises, uma empresa social liderada pela comunidade, da qual é a idealizadora e principal liderança.

“Na minha comunidade tem uma porção de gente que recebe benefício do governo, que gostaria de trabalhar mas não fala inglês e, por isso, não consegue atuar nas profissões que já tinham no seu país de origem, como eletricista, engenheiro, mecânico etc. Eu enxerguei essa situação e tive uma ideia. Levei ela para o vice-prefeito e recebi apoio para estrutura-la”, conta.

Rosa na oficina de empreendedorismo
Em uma oficina de empreendedorismo (Arquivo pessoal)

Rosa percebeu que haviam muitos prédios da prefeitura fechados no bairro e sem uso. Pensou, então, que eles poderiam receber empreendimentos dos moradores, que pagariam pela água e luz. Junto com isso, oferecendo cursos de inglês com quinze horas semanais de duração e conversas com as pessoas em como elas poderiam se tornar autônomas. A prefeitura topou a ideia e ainda ofereceu um curso de empreendedora social para Rosa. “Com ele, fiz meu plano de negócios e abri minha loja”, conta.

Rosa com a comunidade
Com a comunidade, em frente a oficina (Arquivo pessoal)

A empresa apoia os jovens a encontrar sua missão/visão, o que gostam de fazer na vida, seu chamado. Nela, existem duas áreas: em uma a gente faz oficinas, conversas com os jovens, em outra temos o Guarida Community Café: uma lanchonete aonde entra os recursos para as oficinas e quem trabalha no café são as pessoas da própria comunidade”.

Café de Amparo

Foi como empreendedora social que acabou novamente se conectando com o café de Amparo. Acabou conhecendo Vivian Bueno, cafeeira responsável pelo Cereja Café e sua publicidade em Londres: “Houve uma oportunidade aqui para divulgar o Cereja Café, mas Vivian teve que voltar ao Brasil e eu me voluntariei, acabei fazendo a divulgação e fiquei conectada a marca por aqui. Por isso me conectei com o prefeito de Amparo que, inclusive, me convidou para tomar um cafezinho em seu gabinete”, conta.

Rosa e o café cereja
Com Vivian Bueno representando o Cereja Café na embaixada do Brasil em Londres (Arquivo pessoal)

Falando em cafezinho, Rosa ama e fala rindo:

“preto como eu! Sem açúcar, bem quente, com leite e no canecão. É um néctar, um veludo acariciando minha garganta, um abraço caloroso amoroso de dentro para fora”.

Rosa com o prefeito de Amparo
Com o prefeito de Amparo no sítio São José, terra do Café Cereja – publicidade local (arquivo pessoal)

Negras e Negros no Brasil e no mundo

Os abusos e dificuldades enfrentadas por Rosa na infância e adolescência não acabaram nem minimizaram 39 anos depois:

“infelizmente, pensando bem, nada mudou. Hoje em dia continua igual: negro e pobre é para trabalho braçal”.

Para Rosa, a união fará a diferença da mudança de situação social: “Enquanto nós não nos unirmos e sairmos de onde nossos ancestrais passaram, seremos nossos próprios prisioneiros e nossas filhas e netas continuarão no mesmo ciclo. Democraticamente falando nós mulheres podemos contribuir muito… Bóra, bóra, bóra (risos)”.

Para elas, ela recomenda:

“Ame a si mesma antes de mais nada e junto com isso tenha fé em Deus, tenha paciência. Se dê o direito de aprender, não se desanime, seja confiante. Viva a sua vida, pois você é única”.

Seguindo em frente, olhando para o futuro

E Rosa não pára. O que ela quer daqui para frente? Levar mais integração para um país cosmopolita como o Brasil:

“eu gostaria de levar minhas experiências e projetos para o Brasil. A hora é essa, estamos em tempos de mudanças sociais que poderão ser críticas ou de ótimo crescimento para o país”.

Irreverente, para as mulheres em seu dia especial, Rosa deixa uma fala do novelista e poeta britânico William Golding (1911-1993):

“Eu acho insensato a mulher se achar igual ao homem.

Elas são muito mais superiores e sempre foram. O que você der a mulher ela o tornará maior.

Se você der a mulher esperma, ela lhe dará um bebê. Se você der a mulher uma casa, ela lhe dará um lar. Se você der a mulher uma cesta básica ela lhe dará um jantar. Se você der a ela um sorriso, ela lhe dará seu coração.

Ela multiplica e aumenta o que a ela for dado, portanto, se você der a ela porcaria, esteja preparado para receber toneladas de merda”.

O Grão Gourmet agradece a oportunidade de conhecer e contar a história desta guerreira, Rosa Gonçalves. E você, cliente e leitor, como foi ler esta história de vida inspiradora? Comente!

Carol Lemos – jornalista, mudou-se de São Paulo para Alto Paraíso, onde encontra inspiração para escrever e cuidar dos pequenos Uirá Alecrim e Dhyan Eté. Carol escreve semanalmente para o blog do Grão Gourmet. E-mail: carolinalcoimbra@gmail.com.

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